segunda-feira, 6 de junho de 2011

sexta-feira, 4 de março de 2011

INTRODUÇÃO À LEITURA DA «MENSAGEM» DE FERNANDO PESSOA


Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Álvaro de Campos


A Mensagem de F. Pessoa é um livro curioso. O autor assume-se aí como uma espécie de profeta que vai desvendar o sentido da história nacional; um sentido inimaginável, oculto ao olhar comum e que aponta o futuro como algo grandioso ou pelo menos misterioso. O livro parece produto de mais um heterónimo pessoano, tal é a distância a que se situa quer da poesia comum do ortónimo quer da dos três heterónimos mais conhecidos (quanto a temática – sebastianismo, Cristianismo pouco ortodoxo – e mesmo a estilo). Os seus poemas – que assentam numa leitura gratuita e mistificadora da vida de figuras notáveis da nossa história – são de grande qualidade poética.
Esta mistificação parece estar mesmo já sugerida naqueles versos do poema Liberdade:

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não?

Verdade seja porém que em certos escritos em prosa Pessoa afirma atribuir ao seu livro sentidos de grande alcance cultural.

A primeira parte da Mensagem organiza-se a partir do Brasão nacional monárquico (clique na imagem para a aumentar).
Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum: abre o poeta, em epígrafe. «Bendito seja o Senhor, nosso Deus, que nos deu um sinal (uma mensagem)!» E é sem dúvida a ele – que recebeu a mensagem - que cabe revelar os indícios desse sinal que Deus disseminou ao longo da história do país[1].
A chave principal de que se socorre é o sebastianismo, que vem de mistura com outras influências de carácter ocultista.
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Mais escritos “proféticos” de F. Pessoa

Há um soneto ortónimo, dos Passos da Cruz, que começa por estes versos:

Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

O original neles é o poeta assumir-se aí também em pose mais ou menos profética.
Álvaro de Campos, na Tabacaria, embora em tom irónico, também escreveu:

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada
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Se ouviu a voz de Deus e a poderia transmitir aos homens, encontra-se numa situação de profeta.
Vejam-se ainda estes parágrafos em prosa de quando colaborava na revista A Águia:

E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões. Quem sabe se não estará para um futuro muito próximo a ruidosa confirmação deste deduzidíssimo asserto? […]
Tenhamos fé. Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber a nossa alma e o nosso corpo, o quotidiano e o eterno de nós. Dia e noite, em pensamento e acção, em sonho e vida, esteja connosco, para que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã.
E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas "daquilo de que os sonhos são feitos ". E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos nave­gadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente.

                   (publicado na revista A Águia, série II, nº 4, Porto, Abril de 1912)

E ainda mais um fragmento:

Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação - a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.

Fernando Pessoa, in 'Resposta do Inquérito «Portugal, Vasto Império»'

Isto (e há mais) não passa duma mistificação (neste último caso abertamente assumida como tal), mas mostra que a pose profética não ocorre só no texto da Mensagem.
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O plano da Mensagem

A Mensagem organiza-se em três momentos, Brasão, Mar Português e Encoberto, abrindo cada um deles também com uma epígrafe em latim:
Bellum sine bello (Guerra sem guerra); Possessio maris (Posse do mar) e Pax in Excelsis (Paz nas alturas)[2].
É bem original a leitura que Pessoa faz do Brasão português: campos heráldicos, castelos, quinas, grifo, tudo ele representa como figuras históricas (reis ou outros notáveis) que em si encarnaram por um momento e com uma missão concreta esse sinal que aponta o futuro.
Mar Português, a segunda parte, é uma sucessão mais linear de temas da nossa aventura marítima, mas cabem lá também o Mostrengo (um sucedâneo do Adamastor), Horizonte, Ocidente, Mar Português, e ainda poemas mais esotéricos como Ascensão de Vasco da Gama ou a Prece final.
A revelação da Mensagem atinge o seu cume na terceira parte, O Encoberto, a que o poeta impôs uma divisão tripartida de Os Símbolos, Os Avisos e Os Tempos, tudo em função da vinda de D. Sebastião e do seu Quinto Império. A obra culmina com o poema intitulado Nevoeiro, aquele nevoeiro que antecederá a chegada do Desejado. Este momento é precedido por uma sucessão de poemas ordenados em aproximação gradativa à revelação que há-de garantir sentido a todo o livro: Noite, Tormenta, Calma, Antemanhã e, por fim, Nevoeiro.
«É hora!», avisa o vate antes de se despedir, o que faz em latim: Valete, Fratres (Adeus, Irmãos!)

Nesta imagem um dragão envolve e segura o Brasão nacional (republicano); no brasão imaginado da Mensagem, em vez do dragão, é referido um grifo, que é também um ser imaginário, com cabeça e asas de águia, e corpo de leão.
Por muito que se queira valorizar esta construção pessoana, fica-se no fim bastante desarmado e ocorrem à nossa memória os versos irónicos do poema Liberdade, que tudo dissolvem em jogo.
Tanto investimento poético para isto?
Mas foi o mesmo Fernando Pessoa que escreveu:
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Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei.

[1] A frase de abertura Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum parece ter origem na versão latina do Cântico de Zacarias, ou Benedictus, que se lê no Evangelho de S. Lucas, 1, 67 e ss. Aquele hino começa assim: Benedictus Dominus Deus Israel, quia visitavit et fecit redemptionem plebis suæ: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo”.
[2] No Evangelho de S. Lucas encontra-se também a sugestão de Pax in Excelsis, no canto dos Anjos depois do anúncio aos pastores. Mas há uma inversão face ao texto de origem: lá a paz era anunciada aos homens e a glória, essa é que era dada a Deus “nas alturas”, “in Excelsis”: Gloria in excelsis Deo! Aqui deseja-se a “Paz nas alturas”.

Felizmente Há Luar! - uma farsa


Felizmente há Luar! de Luís de Sttau Monteiro é uma obra de leitura obrigatória para todos ou quase todos os alunos que actualmente fazem o 12º ano. O seu protagonista é o general Gomes Freire de Andrade, que acaba enforcado no forte de Oeiras, em S. Julião da Barra.
O autor quer fazer dele um herói, mas a verdade histórica autoriza muito mal tal pretensão.
Na vida de militar de Gomes Freire de Andrade podemos distinguir dois períodos, aquele em que serviu o exército português e aquele em que foi mercenário ao serviço de Catarina da Rússia e depois de Napoleão.
Segundo uma biografia da responsabilidade do Exército Português que se encontra na Internet, este oficial não se sai muito bem no primeiro período, pois atacava “todos os que não eram aristocratas como ele” e “também os comandantes da artilharia, Rosa e Teixeira Rebelo, estes, antigos sargentos, vindos do pequeno campesinato do interior do país, que tinham conseguido ascender ao oficialato devido aos seus estudos e à sua competência técnica”. Esta é uma atitude que noutros tempos se não hesitaria em qualificar de reaccionária: ele valorizava pergaminhos e interesses de classe, não o mérito. Andava às avessas da Revolução Francesa que estava para estalar e do liberalismo que aí vinha.
Mais adiante, escreve-se na mesma biografia:
“Subindo os postos tão rapidamente quanto possível a um oficial aristocrata, mas não o suficiente para seu gosto, tentou todos os meios para subir rapidamente na hierarquia transferindo-se para a Marinha de Guerra, tendo aproveitado a guerra da Rússia contra o Império Otomano, e a assinatura do tratado de Amizade e Aliança entre Portugal e a Rússia, para se propor voluntário para o exército russo, na guerra empreendida pela imperatriz Catarina e dirigida pelo célebre general Potemkine, conflito que terminará com a conquista da Crimeia pela Rússia”.
Temo-lo assim como mercenário ao serviço duma rainha de crueldade proverbial.
Aquando da primeira invasão francesa, em 1807, pôs-se do lado dos invasores. Voltemos à mesma biografia:
“A colaboração com os ocupantes espanhóis e franceses fê-lo ser nomeado para 2.º comandante do exército português, reformado de acordo com os regulamentos franceses, que se dirigiu em Abril de 1808 para França, onde foi integrado no exército francês com o título de Légion Portugaise.
Em Espanha, teve tempo de combater a insurreição espanhola contra os invasores franceses, sendo enviado com algumas tropas portuguesas para o cerco de Saragoça. Regressou a França com as tropas portuguesas do seu comando, dirigindo-se para Grenoble, guarnição da Legião em França”.
Mais adiante foi nomeado governador de Dresden, na Alemanha, por Napoleão Bonaparte.
Tudo isto faz dele um vil mercenário, um oportunista que não olha a meios, um traidor da sua pátria.
Com a definitiva derrota de Napoleão, Gomes Freire de Andrade consegue voltar a Portugal e escapar a um merecido julgamento.
Luís de Sttau Monteiro aproveita-o em 1817, branqueando-lhe o passado e fazendo dele um mártir dos inimigos do liberalismo que se anunciava. É curioso, e também conveniente, que mantenha Gomes Freira de Andrade sempre ausente da cena e que portanto o espectador nunca lhe ouça uma palavra. Podia-se comprometer.
A Igreja sai muito mal parada desta obra, onde surgem posições de cariz protestante e contestatário, nalguns casos ao menos creio que ao modo dos chamados católicos progressistas que se opuseram a Salazar, o que parece um pouco anacrónico.
No final da peça, a juventude escolar que hoje tem de ler o livro fica com uma ideia muito negativa da Igreja e de Salazar, que são os dois alvos do autor, e com uma ideia muito positiva sobre o liberalismo. Isto é, a nosso ver, falseador da verdade, pois branqueia-se um homem que tinha um passado nada recomendável e torna-se mais grave quando logo a seguir o aluno vai passar para o Memorial do Convento, onde a paixão se sobrepõe também à procura serena da verdade: nunca nele, por exemplo, se valoriza a extraordinária arte do Convento de Mafra.
A Igreja foi seriamente vítima da sanha jacobina do liberalismo, mas isso não está nesse livro nem noutros semelhantes.

Imagens a partir de cima:
Gomes Freire de Andrade
Catarina da Rússia
Napoleão Bonaparte

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Camões maneirista


O site do Instituto Camões afirma com toda a clareza que o seu patrono é um poeta maneirista. Mas ainda há quem defenda que não, que ele é renascentista.
Na Wikipédia italiana afirma-se do Renascimento (italiano):

Bertrand Russel e alcuni studiosi pongono la data della fine del Rinascimento al 6 maggio 1527, quando le truppe spagnole e tedesche saccheggiarono Roma. Per la maggior parte degli storici dell'arte e della letteratura il passaggio dal Rinascimento al manierismo avviene in Italia negli anni venti del Cinquecento e non oltre la metà del XVI secolo, mentre nella storia della musica la conclusione si situerebbe più avanti, attorno al 1600.

(Bertrand Russel e alguns estudiosos põem a data do fim do Reanascimento em 6 de Maio de 1527, quando as tropas espanholas e alemãs saquearam Roma. Para a maior parte dos historiadores da arte e da literatura a passagem do Renascimento ao maneirismo aconteceu na Itália nos anos vinte de Quinhentos e não além do meio do séc. XVI, enquanto na história da música a conclusão se situaria mais adiante, cerca de 1600.)

Se, lá, a passagem do Renascimento ao Maneirismo ocorreu nos anos 20 do século XVI, quando terá ocorrido em Portugal?
Sobre a pintura maneirista portuguesa, lê-se na História da Arte Portuguesa, Círculo de Leitores, vol. II, pág. 428:

A pintura que se produziu em Portugal (e nos espaços do mundo português) nos anos de 1550 a 1620, grosso modo, sintonizou a sua linguagem pelos novos cânones anticlássicos da maniera italianizada, dentro embora de um campo de pesquisas marcado pela originalidade da sua conduta criadora. Fosse nos anos centrais do século, onde a força das novidades romanas e florentinas introduzidas por artistas viajeiros (Francisco de Holanda, António Campelo) se constituiu como modelo de renovação, fosse na fase de predomínio dos valores tridentinos «reformados», de mais esclarecido discurso de catequização, toda a nossa produção pictórica da segunda metade de Quinhentos não deixou de olhar a Itália do pós-Renascimento como tópico inspirador.

Isto é, pelo menos a partir de meados do século, considera-se que os pintores aderiram à prática maneirista - e na poesia sucedeu certamente o mesmo.
E na pág. 478 do mesmo livro, afirma-se que “o pintor Fernão Gomes, autor do retrato de Camões, pintor régio de Filipe I e de Filipe II de Portugal, desenhador exímio, «homem de bravo talento» segundo o biógrafo Félix da Costa Meesen, é a outra destacada personalidade lisboeta da «terceira geração»” [«terceira geração» maneirista, entenda-se].
Significa isto que, em finais do século, já se ia na terceira geração maneirista, o que liminarmente contradiz aqueles que, ignorando a existência do Maneirismo, prolongam o Renascimento até ao início do Barroco.
As outras histórias da arte recentes seguem o mesmo caminho que a que citámos.
Muito mal andaria Camões se tivesse andado ao arrepio de todos os seus contemporâneos mais avançados. Mas a leitura da sua poesia confirma-o plenamente como maneirista, como pós-renascentista, ao modo do que é afirmado na página do Instituto Camões.
Quem em Portugal defendeu abertamente e pela primeira vez, há muitas décadas, Camões como maneirista foi Vítor Manuel de Aguiar e Silva.

Imagem: Luís de Camões por Fernão Gomes (c. 1573).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

UMA NO CRAVO...

“OS MAIAS”, UM ROMANCE DE VENCIDOS

Os Maias não são um romance de gente vitoriosa, pelo contrário, são um romance de gente vencida. Já para perto do seu final, Ega confessa a Carlos, o protagonista: “Falhámos, menino, falhámos”.
Ninguém escreve uma história tão longa de derrota se não se sentir também derrotado, e Eça havia de integrar em breve o grupo dos Vencidos da Vida. E não se esqueça que no grupo estava Oliveira Martins, que se suicidaria depois de uma anterior tentativa falhada, e que Antero se suicidaria pela mesma altura.
Sendo assim, não há que admirar que globalmente a obra seja de orientação negativa, pessimista. E é.
Cada ano que passa a sinto mais assim. E por isso não vejo que seja obra especialmente aconselhável para a juventude. E não será aconselhável também pelo seu tamanho e dificuldade.
Vou-me fixar agora num episódio do romance que em certo sentido é esclarecedor do derrotismo que o perpassa, o da corrida de cavalos.
Eça conta aí uma corrida de cavalos que decorre em Lisboa, para os lados de Belém, que na altura era um lugar muito despovoado. Foi aí, nas proximidades do Tejo, longe da cidade, que os organizadores, o Jockey Club, encontraram o mais aceitável espaço para o seu hipódromo improvisado.
Está-se por 1876 e Portugal estaria a dar os primeiros passos no desporto entendido em sentido moderno, chamemos-lhe o desporto de massas. Um clube desportivo como o Sport Lisboa e Benfica vem de uns 30 anos mais tarde.
Talvez Eça pretendesse evocar a primeira corrida de cavalos em moldes desportivos estrangeiros. De facto, ela é sempre avaliada por comparação com o que se faz lá fora; e da comparação sai-se muito mal. Lá fora neste caso é a França e a Inglaterra. Lá as pessoas eram muito mais ricas, tinham roupas adequadas para um evento destes, os prémios deviam ser mais atraentes, os cavalos de muito mais qualidade, os hipódromos bem preparados para o efeito: havia uma tradição de corridas. Aqui as pessoas vêm com roupas de missa ou desadequadas por outras razões, o hipódromo é pelintra, as bancadas são pelintras, os cavalos são fracos, chega a haver uma corrida de um só animal. Um fracasso.
Só que… Eça não tinha necessidade de expor esta miséria nacional nas páginas do romance; fê-lo porque quis veicular através dele a sua perspectiva derrotista sobre o nosso atraso.
Mas há pior: fica-se com a sensação de que o país era incapaz de organizar um evento do género. Ou, alargando a perspectiva, de que era incapaz para o desporto. Isto não é gratuito, pois o que está em causa é justamente o desporto moderno, de massas, como já disse.
Ora isto é falso: nós tivemos recentemente o Figo, temos o Ronaldo e o Mourinho, figuras de topo do desporto em qualquer lado. E somos bem capazes de organizar uma boa corrida de cavalos.
Quando chegamos à conclusão de que o autor falhou na mesnagem que quis colar ao episódio, passamos a distanciar-nos dele, a pôr-nos numa atitude de não aceitação passiva, o que é muito desejável. Foi esta a atitude predominante do próprio Eça, que tantas coisas pôs em causa.


DUAS CARICATURAS DE EDUCAÇÃO
É conhecido o tema da educação n’Os Maias. Estão lá em paralelo as educações do Carlinhos com a do Pedro da Maia e a do Eusebiozinho. Nos dois casos são apenas caricaturas de educação.
Na do Carlinhos, falta a presença activa do carinho materno: falta uma mulher de bom senso, que aparasse as asas a Afonso da Maia e promovesse uma séria educação moral e religiosa do pequeno. Que atitudes primárias ali se vêem!
Nas do Eusebiozinho e de Pedro da Maia, falta o contributo dum pai responsável, que abrisse às crianças as portas para um mundo mais vasto.

Nem todas as mães são beatas, pois há muita mais vida para além da beatice; nem todos os pais são comodistas, passa-culpas.
A esposa de Eça, por exemplo, que era católica praticante, era uma senhora cheia de bom senso, activa, uma educadora exemplar.

A educação de Carlos é um fracasso semelhante à do Eusebiozinho e à do Pedro da Maia, pois não o dotou dum sistema de valores que o conduzisse na vida e fizesse dele um cidadão útil. Como o Ega reconhece, Carlos falhou (e o Ega também). E não falhou devido ao meio ambiente, falhou desde jovem, pois desde jovem foi um boémio, dado a amores libertinos, sem nenhum respeito pela instituição familiar, que é basilar numa sociedade.

Esta caricatura, cheia de pessimismo, coaduna-se bem com o vencidismo que se apossara de Eça, manifestado no grupo dos Vencidos da Vida, a que ele pertenceu, se é que não promoveu.
O leitor é ali colocado perante duas propostas educativas, a tradicional, aplicada ao Eusebiozinho, e a «inglesa», aplicada ao Carlinhos. Mas ambas estas crianças acabam em cidadãos falhados, pessoal e socialmente. Como todos nós tivemos antepassados nesse tempo, eles deveriam ter sido educados por um ou outro destes modelos, logo seriam uns falhados e progenitores de falhados. E esse falhanço devia chegar até nós. O que é absurdo.
Isto é, o autor d’Os Maias está muito longe de ser aquele sábio perante quem nós não temos senão que dizer que acertou. Não, o seu olhar não era claro.
E se a alguém isto parecer pouco ortodoxo, vá dar uma olhadela a A Cidade e as Serras e a A Ilustre Casa de Ramiores e lá verificará que o mesmo Eça defende pontos de vista muito opostos aos d’Os Maias.
Nem Eça, nem Camilo, nem Pessoa, nem Saramago têm a verdade toda.
Muito antes deles, houve um poeta que disse: «Rasga meus versos!» Sem chegar a tanto, todos devemos contudo manter perante a literatura uma visão serena e sempre crítica. A verdade está quase sempre ao nosso lado, o que é preciso é procurá-la.


AS LOUCAS MULHERES D’OS MAIAS

Os Maias são um romance bastante masculino. Mas agora vamo-nos pronunciar sobre a qualidade humana das mulheres que nele ocorrem.
As mulheres deste romance são filhas directas do autor: é assim em qualquer história de ficção. Com excepção da irmã de Carlos, uma vítima das loucuras maternas, são todas caricaturas, o que as reúne num lamentável quadro, certamente ofensivo se tomado como retrato do panorama feminino português do tempo.
Vejamos uma lista, ainda que incompleta: Maria Eduarda Runa (“A sua devoção – a devoção dos Runas –, sempre grande, exaltara-se…”), Maria Monforte, Tia Fanny (um apêndice de Afonso que serve para diminuir a esposa deste), Gertrudes, a viscondessa (familiar de Afonso que aparece em S. Olávia), Ana Silveira, Eugénia Silveira, a Teresinha (“uma rapariguinha feia, amarela como uma cidra”), Mãe do Ega, Hermengarda, Encarnación, a Madame Rughel, a Coronela dos Hussardos, a Raquel Cohen, a Gouvarinho, Maria Eduarda, a Mélanie, Miss Sara, a baronesa de Graben…
Podemos reuni-las em grupos. Assim, são aparentadas Maria Eduarda Runa, a viscondessa, Ana Silveira, Eugénia Silveira e a mãe do Ega. Como se trata de mulher honestas, o autor caricaturou-as como beatas incorrigíveis e de vistas tão curtas que é de duvidar se tenham existido tais seres. São manifestamente estúpidas e velhas ou avelhentadas.
Depois temos o grupo da Maria Monforte e da filha Maria Eduarda. Conhecemo-las em jovens: são descritas como possuindo ambas uma beleza que estonteia; as aparições duma e doutra em Lisboa fazem grande alarido: são de facto também uma hipérbole.
Maria Eduarda Monforte, que era rica, começa sofrivelmente, mas carrega o mal que a há-de rebaixar: a desocupação e a leitura de literatura romântica. Lembrar Madame de Bovary.
A filha parecia mais equilibrada à partida, mas é empurrada para a miséria moral e também económica pelas loucuras da mãe. Envolvida mais ou menos em inocência no incesto com Carlos, resgatar-se-á depois.
Outro grupo é o da Raquel Cohen e da Gouvarinho. Estão ambas próximas da Maria Monforte ao não terem uma actividade útil a que se apliquem e ao deixarem-se deslizar para o adultério por divertimento: a Cohen fá-lo repetidamente, a Gouvarinho persegue Carlos com sofreguidão.
Em nível economicamente inferior, mas de semelhante jaez, está a Hermengarda; também se aparenta com esta a Miss Sara.
A Encarnación e a Lola e outras são um grupo à parte, constituído por prostitutas jovens, ao serviço de homens sem escrúpulos que lhes desfrutam a juventude.
O que é confrangedor é que num conjunto feminino tão numeroso não surja uma mulher moral e socialmente aproveitável. Isto é tanto mais gritante quanto o autor tinha agora dentro das portas uma jovem esposa de ideias claras, cheia de equilíbrio, apaixonada, excelente mãe de família e devota quanto convinha.
Nas corridas de cavalos, fala-se dum grupo feminino, que é rebaixado no aspecto físico, mas a que não é atribuída tão genericamente a vilania.


A DEDICATÓRIA D’OS LUSÍADAS

Vou recuar bastante no tempo, para o séc. XVI, pois pretendo falar da Batalha de Lepanto, que teve lugar em Outubro de 1571, e d’Os Lusíadas, que foram publicados no ano seguinte. O poema deve ter atingido a versão definitiva já no final do 1571, quando D. Sebastião, que nascera em 20 de Janeiro de 1554, ainda não teria completado 17 anos. Camões dedica-lho, mas fá-lo nuns termos que me parecem imperdoavelmente exagerados.
Rei desde os três anos, rei de facto desde os 14, D. Sebastião era em 1571 um jovem com um feitio não muito adequando à alta função que lhe cabia; mas repousavam sobre os seus ombros as esperanças de um Portugal independente, já que o próximo herdeiro do trono era o monarca castelhano. Era urgente que casasse, para poder ter herdeiros.
Face a estas condicionantes, é muito de estranhar o modo como Camões lhe fala na dedicatória da epopeia e depois nas estrofes finais do poema. Vamos recordar a dedicatória.
Depois de lhe chamar “bem-nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade”, o que estava certo, chama-lhe logo “certíssima esperança / De aumento da pequena Cristandade”, o que já não vinha muito a propósito, dadas as limitações económicas gritantes do país e as limitações do jovem rei. Mas o pior vem depois em catadupa: chama-lhe “novo temor da maura lança” (isto é, dos reinos mouros em geral, incitando-o à guerra), chama-lhe “poderoso Rei, cujo alto Império / O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, / Vê-o também no meio do Hemisfério, / E quando dece o deixa derradeiro” (ao modo do que se dizia do seu tio Carlos V), e sobretudo diz do moço rei que se espera dele “jugo e vitupério / Do torpe Ismaelita cavaleiro, / Do Turco Oriental e do Gentio / Que inda bebe o licor do santo Rio”. Isto é, mostra-lhe um campo de acção guerreira que vai da África do Norte ao império otomano e a toda a Índia.
Isto é de facto autêntica loucura. E a proposta é confirmada, ao menos em parte, no final do poema, quando o poeta o incita o jovem rei à guerra no Norte de África, dispondo-se a cantar-lhe nova epopeia com os feitos bélicos que aí praticasse. O Rei acabaria por ir e ficar Alcácer-Quibir, perdendo o país a independência.
É difícil de não concordar com a gravidade destas incitações irresponsáveis à actividade bélica, ainda por cima saídas da pena de quem tinha algum conhecimento do que era o campo da batalha.
Eu creio que actualmente a tendência é para reconhecer que Camões é mais genial na Lírica (sonetos, canções, éclogas, redondilhas, etc.) do que n’Os Lusíadas. De facto, a meu ver, a epopeia não responde satisfatoriamente a muitas questões que lhe podem ser dirigidas.
Disse atrás que a epopeia há-de ter ficado pronta talvez no final de 1571, mas pelo menos alguns meses antes de vir a público, pois o trabalho tipográfico na altura devia ser muito lento.
Nesses meses a cristandade católica estaria sob o efeito da grande, da extraordinária vitória obtida em Lepanto, em Outubro de 1571.
O sultão de Constantinopla prometia entrar a cavalo pela Basílica de S. Pedro, que então ainda não estaria bem terminada. A sua soberba era uma ameaça a que era urgente pôr algum cobro.
Depois de muitas negociações e dificuldades, lá se reuniu uma frota para enfrentar os turcos. A batalha decorreu junto a Lepanto, a sudeste da Grécia. Comandou a armada D. João de Áustria, um parente próximo de D. Sebastião, pois era filho, embora bastardo, do irmão da sua mãe, Carlos V. A frota turca era comandada por Ali-Pachá, que foi morto, e a vitória católica foi grandiosa. Nem é bom pensar nas consequências que uma derrota poderia ter provocado…
A minha ideia é a de que Camões terá acreditado que D. Sebastião iria gozar, nas aventuras militares, duma protecção divina semelhante à que possibilitara a decisiva vitória do seu primo D. João de Áustria. Assim, certas afirmações da dedicatória fariam muito sentido; sem isso, não vejo que sentido façam.
Sobre a batalha de Lepanto, contam-se coisas extraordinárias. Por exemplo, que Nossa Senhora teria sido vista sobre a frota turca numa atitude que não augurava nada de bom; que o Papa Pio V, em Roma, sem receber notícia nenhuma de Lepanto, por altura da vitória, teria convidado os cardeais a irem agradecer com ele a Deus o êxito católico. A essa batalha está também associado o incremento da oração mariana do terço.

Que escândalo! Que escândalo!

Uma carta de Eça a Ramalho Ortigão


Newcastle 10 Novembro 78

Meu querido Ramalho

Como são belas as promessas escritas no papel! Vai-se à Exposi­ção - mas quer-se ver o amigo íntimo! Sem o amigo a Exposição seria tão pouco saborosa como a Feira das Amoreiras. Que o amigo íntimo venha a Paris... Mas tal é o desejo de o abraçar - que se ele não puder vir a Paris ir-se-á a Londres! E mesmo, que diabo, se ele não vier a Londres, ir-se-á a Newcastle! Mas que se abrace o amigo íntimo! Exclama-se: «É necessário que nos encontremos em qualquer ponto do mundo!» significando-se que se está pronto para o ver a trepar aos píncaros do Himalaia, ou a descer aquelas profundidades oceâni­cas onde habita a pieuvre e o galeão de Vigo! - Depois parte-se, com uma chapeleira e com o Eduardo Coelho! Chega-se ao Havre, onde outrora o grande Brummel, deus do dandismo, foi vice-cônsul! E enfim avista-se a luz eléctrica da Place de l'Opéra - espanto e confusão da burguesia de dois hemisférios. E desde esse dia, Un silence parfait régne dans cette histoire... Então volta-se, der­reado de admiração, e faz-se ouff! ao depor a chapeleira a um canto duma vivenda, na Cruz Quebrada. Os dias passam, o glorioso Tejo defronte evapora amor da pátria, o nome do viajante repimpa-se ao comprido da local, reclinado a adjectivos fofos, - e uma manhã, ao abotoar a braguilha, exclama-se, com um berro de vergonha e de dor:
- Oh diabo, que lá esqueci o amigo íntimo!
Quem foi que escreveu um tratado estimável sobre a Amizade? Cícero ou Séneca? Em qualquer caso na impossibilidade de remeter a um desses literatos este caso, como material para um capítulo misan­tropo sobre a solidez da amizade em viagem - corramos um véu teci­do de benevolência e bordado a perdão sobre este episódio cómico.

Passo ao segundo ponto da minha carta. Conhece Você, nos jun­cais do Porto um tigre por nome Chardron? Essa fera escreveu-me há tempos, dizendo d'un ton paternel que ia encomendar a minha biografia a um literato da capital. Fiquei azul de pavor. Vê Você, daí, Gervásio Lobato fazendo variações sobre o meu nascimento? Escre­vi para os juncais do Porto, melifluamente, dizendo que seria inútil incomodar um génio, com um assunto tão terre-à-terre; que verdadeiramente havia só um homem que, com conhecimento, poderia escrever a minha história - e esse homem era... Como o sabia a Você seguro em Paris, citei-o a Você - porque tinha de citar um nome. O tigre reentrou na caverna. Eu respirei. Há duas semanas, vem-me do Porto um grande grito de júbilo, que se traduz assim – o homem chegou, Ramalho está, Ramalho vai escrever a Biografia, e Ramalho quer publicar o que escreveu nas Farpas sobre o Padre Amaro com mais alguma curiosidade biográfica, salpicada em inter­valos. - Em presença deste facto - eu só tenho a dizer: Suspendei, senhor!Raciocinemos. O artigo sobre o Amaro era uma interpretação do meu talento feita pela sua amizade: julga V. que a minha nova edi­ção do Amaro deve abrir por um esplêndido elogio, feito, como ele os sabe fazer, pelo meu melhor amigo? Não. Portanto, querido Ramalho, combinem quelque chose de mieux. Se V. aceita a enco­menda da minha biografia - não se esqueça de que ela é publicada num livro meu, e que o País todo, e as terras de Santa Cruz sabem que nos liga uma amizade fraterna. Qualquer elogio - seria incitar o leitor - di cá ou di lá a rosnar, escabichando o dente: - Compadres!
Faça portanto alguma coisa de curto, seco, sóbrio, - como se se tratasse de si mesmo.
Dados para a minha biografia - não lhos sei dar. Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra. O tigre Char­dron exclama: - Mande-lhe todos os documentos. Que documentos, meu Jesus? Eu só tenho a minha carta de bacharel formado. Qué-la? O mais regular seria fazer a história da minha literatura: é escasso, bem sei, mas é correcto. De resto devo dizer-lhe que O Crime do Padre Amaro é um romance novo: do romance que Você leu só fica o título: o mais, linha por linha, sofreu uma tal transformação que esta edição diverge tanto da primeira como o D. Quixote da Henriade: este símile é para marcar a quantidade de diferença, não a diferença do género. Fiz bem, ou mal - em refazer assim um velho romance? Obedeci a uma espécie de instinto - e o caso é que vai você ver um estranho trabalho.
Portanto ficamos entendidos: biografia sem elogio, é o motto. Se se tratasse dum artigo para uma revista eu então francamente pro­poria outro motto: - Elogio sem biografia.

Vamos agora ao terceiro ponto da minha carta: mas antes de mais, abra essa epístola para o Corvo e leia. Eu no entanto acendo um cigarro... - Leu? Que lhe parece?
Explicar-lhe-ei primeiro por que concebi o livro - depois por que escrevi ao Corvo.
Concebi o livro, uma tarde, em casa duma senhora, estando só com ela; ela tocava ao piano a gavotte favorita de Marie Antoinette - e eu ao pé do lume acariciava um cão. De repente sem motivo, sem provocação - lembrou-me, ou antes flamejou-me, através da ideia, todo esse livro tal qual o descrevo: singular, não? Fiquei aterrado: supus ser ou um pressentimento, ou uma visão. Depois a minha segunda exclamação mental foi esta: - que escândalo no país!
Você - conhece-me - e está aí a ver que me despedi da senhora, e vim para casa, lançar o esboço do escândalo para o país. É simples­mente o que eu quero fazer: é dar um grande choque eléctrico ao enorme porco adormecido (refiro-me à pátria). Você dirá:
- Qual choque! Oh ingénuo! o porco dorme: podes-lhe dar quan­tos choques quiseres com livro, que o porcohá-de dormir. O destino mantém-no na sonolência, e murmura-lhe: dorme, dorme, meu porco!
Perfeitamente: mas eu estou-lhe a dizer o que pretendo fazer – e não que o país fará: naturalmente, continuará a dormir: veremos. - Além do escândalo - quero dinheiro. Se o Primo Basílio se vendeu - por que se não há-de vender a Batalha do Caia? Cuida V. que lhe hão-de faltar os episódios picantes, lúgubres, voluptuosos, épatants? Pas si bête. Há-de ter de tudo: um salmis d'horreurs. O burguês gosta da rica cena de deboche? Há-de tê-la: somente desta vez é a sua própria filha violada, em pleno quintal, pelo brutal catalão dos dragões de Pavia: - a sua própria filha, a quem outrora Bulhão Pato murmurava: Lembras-te ainda dessa noite, Elisa? Portanto - se o livro se vende - por que não hei-de fazer especulação e tratar de pagar as minhas dívidas? Donc, résumons: choque eléctrico ao porco, e dinheiro para bebé (bebé c'est moi).
Agora para que escrevi ao Corvo: é que a coisa é séria; eu sou um empregado do Governo - e um tal livro é grave: o episódio dos dois compatriotas inteligentes não é inventado: eu li o esboço ao Vaz, rapaz distinto, nosso attaché em Londres: estou a vê-lo no meu sofá, com as mãos apertadas na cabeça, murmurando com um ar azabumbado: - Que escândalo! Que escândalo! - Quando eu cheguei ao capítulo (li-o no plano-argumento) da fuga do rei, e da anarquia em Lisboa - o rapaz ergueu-se, pálido:
- Oh amigo! Oh amigo! Et il avait des larmes dans la voix!Despediu-se de mim, dizendo com um tom lúgubre: - Queime isso! Queime isso!
Não quero, portanto, que o Corvo me possa dizer depois - V. não tinha direito a publicar semelhante livro.
Mas há outra razão para eu escrever ao Corvo - é que este traba­lho representa para mim capital: e se ao ministério regenerador não convém que se diga de antemão, o que há-de acontecer em breve - e se me força a inutilizar um capital, deve indemnizar-me. Isto é claro como o bom Bordeaux. Não lhe parece? Talvez V. não ache estrita­mente moral: responderei como Darwin: - na luta da vida ser fraco é quase ser culpado.
Agora direi para que lhe mandei a carta ao Corvo: para que você a leia - e decida, compenetrando-se da amizade que nos une há tan­tos anos, o que tem de melhor a fazer para me levar este caso a bom caminho - isto é torná-lo o mais rendoso possível para bebé (bebé c'est moi). Se Você pensa que não deve aparecer neste episódio, passe o lábio pela cola do sobrescrito, assente-o com a palma da mão, e meta-o numa carta dizendo: - «O Queiroz pede-me para lhe remeter esta carta».
Se V. entende que deve, num assunto - que é de política, de Arte e de interesse para mim, ir falar-lhe, põe o chapéu, et va chez lui. O homem lê diante de V., a pedido seu.
E então, uma de três:
Ou diz, rindo: - que diabo, diga ao Rapaz que pode publicar, é inteiramente inofensivo! - Nesse caso, você aperta-lhe a mão, e exclama: - Essa palavra, Exmo Sr., é dum grande Estadista! - E sai pela porta do fundo.
Ou o Corvo hesita, faz beiço, coça a cabeça, e mostra-se, como dizia um amigo meu - esquisito em quanto à resolução. Você, então, toma o seu tom mais filosófico, e diz:
- O Queiroz está absurdo: publicar um tal livro é fazer um escân­dalo internacional: é revelar a nossa fraqueza, a nossa desorganiza­ção: é despertar o ódio vago do país contra alguém que lhe criou uma situação donde pode sair uma tal catástrofe. Esse alguém que ele procura para odiar - aparecer-lhe-á sob a forma visível de quem tem neste momento o poder: Rei e Regeneradores... Etc., etc. Por­tanto o melhor é dizer ao homem que queime o livro: mas como o livro representa um capital, é necessário que o moço não perca tudo - glória e proveito. Mande-lhe V. Sa abonar uma certa quantia (carre­gue na quantia: de conto e quinhentos a dois contos).
Suponhamos, porém, que ele diz: - não! nunca! Proíbo-o que publi­que semelhante coisa! - Você então toma um ar à Robespierre, e diz secamente: - Perfeitamente: é como obrariam os Cabrais; eu vou daqui fazer um escândalo nacional. É o fim da liberdade de imprensa, de opinião e de consciência. E o Syllabus, etc. (Você conhece a tirada.)
Ao menos - acrescente V. - é da mais estrita justiça que já que lhe proíbem - que publique os seus livros - se considere que esses livros representam trabalho e que se lhe pague portanto esse trabalho! Etc. (Vous savez qu'il y a une autre tirade sur cela.)
Agora diz Você:
- Mas no fim, o que quer o menino, que a coisa se publique, ou se não publique: venha sa pensée intime.
Ma pensée intime
é esta: que o livro (sendo útil como um meio de mostrar ao país as consequências de prolongar uma tão horrorosa condição de abaixamento) - é, por um lado inoportuno, por outro um ataque de folha em folha à vizinha Espanha: e serve portanto apenas para criar irritação. Por isso era melhor talvez que se não publicasse. Por outro lado - perder tais episódios literários? Oh menino! Pois não poderei eu dar à publicidade uma descrição de Lisboa em anarquia: as igrejas cheias de mulheres aflitas, as improvisações dos batalhões voluntários, os Bancos quebrando, a falta de trabalho organizando insurreições diárias, o pânico na secretaria, o burguês da Baixa em presença da catástrofe? Não poderei publicar a descrição da Sexta-feira da Paixão - em que se sabe em Lisboa que o Morning Post publicou o tratado entre as potências pelo qual a Alemanha anexa a Holanda, a França, a Bélgica, a Rússia, toda a Roménia, a Áustria, a Bósnia, a Itália, Fiume - e que a Inglaterra, isto é, Lord Beaconsfield, já no seu leito de morte, em presença da medonha demonstração de Londres, declara a guerra à Europa? É daqui que vem a Conflagração Europeia - e a invasão. Tudo isto é de boa literatura. Portanto eu queria ver a coisa impressa. Mas se o escândalo é tal que o Governo tem de me désavouer, Ah! amigo, a coisa é grave. O que resta é isto - e aí vai ma pensée intime - é que a ideia publicada ou inédita é um capital: esse capital tenho direito a ele, que me venha do Chardron (ou do público, melhor) pela publicação, ou que me venha do Governo pela proibição - é-me indiferen­te: e Você está por esta encarregado de fazer produzir capital à ideia.
Amigo, leia com atenção este volumoso documento - e responda logo o que fez, e o que se decidiu. O que eu não quero é que a ideia fique improdutiva.

Passo agora ao último ponto da minha carta - e é pedir-lhe que ponha os meus respeitos aos pés de Madame Ortigão, que mande um abraço ao bravo Jeco quando lhe escrever, e que beije por mim as mãos das suas filhas.
E abraço formidável do
Seu do C.
Queiroz

P. S. Leu por acaso o começo da Capital? Que lhe parece: mande frase que classifique, e diga se há progresso.

P. S. importante: - É indispensável que o Corvo nem por sombras suponha que o que se quer é extrair-lhe uma quantia: porque real­mente não é, e a prova é esta:
Do Primo Basílio venderam-se 3000 ex. que eu saiba: mas isto não quer dizer nada: o que importa mais é que o Chardron que manda da Capital só para o Brasil 3000 ex., da Batalha do Caia podem sem receio tirar-se 9 ou 10 000 exemplares. Vendidos a 500 rs. já V. vê que é uma especulação.
Portanto ao Corvo fala-se só em consentir e não consentir: se ele não consente - exclama-se: - Como! mas eu vim aqui, supondo que V. não podia de modo nenhum impedir, etc. O meu pedido era ape­nas uma formalidade! Veja que dinheirão o moço perde! É uma infâ­mia! Etc.
E sobre tudo isto, sigilo!


Uma vez dizia uma professora, a respeito desta carta e documentos semelhantes, que se deviam fazer desaparecer da biografia dos escritores. Que bom modo de criar postumamente homens honestos!
Porque o que está aqui é o jeito satânico do Ega d'
Os Maias… O jeito dum homem que quis fazer uma crítica envolvente ao seu país. O jeito dum homem que se propôs criticar quase tudo, mas que criticou mal, há que o dizer.
Ele não viva na realidade… A realidade pede honestidade… não este tipo de subterfúgios.
Cego guiando cegos…
O dinheiro! Há gente que se governa com tão pouco e Eça não se governava com o ordenado de cônsul? Precisaria ele de ser um Jacinto? Ou um Carlos da Maia? … Ou um Raposão?... Ou um mandarim?
“E sobre tudo isto, sigilo!” “Que escândalo!”

sábado, 1 de agosto de 2009

A blasfémia republicana

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Na República houve certamente gente moderada ao lado dos iconoclastas. Mas predominou a linha dura, que agrediu a maioria católica.
A haver uma comemoração do seu primeiro centenário ela devia destinar-se sobretudo a honrar as heróicas vítimas que o novo regime provocou e não engrandecer os algozes e caceteiros que o desacreditaram.
Os dois documentos que colocamos a seguir não devem merecer grande importância, mas serão apenas uma curiosidade histórica que testemunha até aonde pode levar a cegueira da paixão.
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Credo republicano


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Creio na Deusa Natureza, toda-poderosa, criadora da terra lusitana, e na República, uma só e sua filha, nossa Senhora, a qual foi concebida do Espírito revolucionário; nasceu na cidade de Lisboa, padeceu sob o poder da monarquia tirana, foi crucificada, morta e sepultada em 31 de Janeiro de mil oitocentos e noventa e um, desceu às masmorras do jesuitismo; em cinco de Outubro de mil novecentos e dez, ressurgiu do martírio, subiu ao poder, está sentada à mão direita do Povo soberano, todo-poderoso, donde julgará os vivos e os mortos, mártires e traidores da Pátria.
Creio na República portuguesa, na Igreja da Honra e da Moralidade, na comunicação do povo, no arrependimento dos trânsfugas e farsantes, na ressurreição da Pátria, na vida eterna da Ordem e do Trabalho.
Ámen.
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Ave-Maria


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Ave República, cheia de graça, o Presidente é convosco; bendita sois vós entre as nações livres e bendito é o governo da vossa Revolução.
Santa República, mãe dos Portugueses, rogai por nós, mártires da monarquia, agora e na hora da redenção universal.
Ámen.