segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Do seu longínquo reino cor-de-rosa



Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia -
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.

Fernando Pessoa

Bonito poema este de Fernando Pessoa! Talvez por isso não figure nas antologias.
Dele estão ausentes aquelas originalidades um pouco doentias como a dor de sentir, a fragmentação do eu e outras semelhantes. O seu autor é uma pessoa comum, como em O menino da sua mãe, em Liberdade e nalguns mais.
É narrativo, conta uma história: há nele acção, um vago espaço, tempo. Das personagens só sobressai a fada, a criança é passiva.
De facto, a história tem algo de alegoria, uma vez que, através da acção da fada, relata o que é a realidade comum, a de os sonhos levarem as pessoas a momentos passageiros de euforia.
O poema começa com o retrato da fada já na sua aproximação à criança; nas duas estrofes centrais, ela acaricia-a antes de fazer a magia de a induzir em sonhos de maravilha; e, nos três versos finais, regressa ao seu reino. Naturalmente, a criança volta à realidade.
Esta oposição sonho/realidade é muito frequente em Fernando Pessoa, lembrem-se poemas como Não sei se é sonho, se realidade (ortónimo) ou Aniversário (Álvaro de Campos).
O mundo do sonho descrito no poema é subtilíssimo: “longínquo reino cor-de-rosa”, “voando pela noite silenciosa”, “luzindo”, “papoulas a coroam” “misteriosa”.
Quando chega junto da criança, a fada é de delicadezas de maravilha: “chega leve”, “pondo-lhe na fronte a mão de neve”, “os seus cabelos de ouro acaricia”.
Logo que a criança começa “a sentir”, o mundo dos seus brinquedos transforma-se num cortejo festivo, onde há “cavalos e soldados e bonecas, / ursos e pretos” e “palhaços que tocam em rabecas”, correrias...
Há nisto tudo algo de hiperbólico.
O poema tem a interessante originalidade estilística de usar o verbo com função narrativa apenas no presente (as formas de gerúndio, abundantes na primeira estrofe, são adverbiais). Certamente por ser narrativo, a presença de recursos estilísticos é limitada, mas deve-se ter em conta a anástrofe, que é recorrente.
Ele organiza-se em quintilhas de versos decassilábicos normalmente heróicos.

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